A avó materna de Mirella Poliane Chue de Oliveira, morta aos 11 anos por envenenamento, disse nesta quinta-feira (9), durante julgamento de Jaíra Gonçalves de Arruda Oliveira, de 43 anos, acusada de matar a enteada, que a menina nunca gostou da ré.

Durante o depoimento, no Fórum de Cuiabá, Claudina Chue Marques, afirmou que Jaíra fazia intrigas na família, era preguiçosa e só acordava depois das 10h. “Vou ser bem clara: sabe quando seu sangue não bate com o de uma pessoa? Não gosto. Não gosto dela”, declarou.

Segundo Claudina, Mirella nunca falou bem da madrasta, mas também nunca reclamou de maus tratos. “A relação delas eu não sei. Ela sempre falava bem do pai, mas nunca falou bem da Jaíra. Porque falaria bem, se não convivia com ela?”, afirmou.

Em defesa do ex-genro, a avó materna disse que a menina gostava muito do pai.

No entanto, segundo a avó, não foi ela a responsável pela denúncia e que todos os exames feitos após a morte teriam demonstrada que Mirella não foi vítima de abuso sexual. O julgamento ocorre em Cuiabá após mais de dois anos da morte da criança.

Mirella morreu em 14 de junho de 2019, após ser internada em um hospital particular da capital. Através de exames, foram detectadas duas substâncias no sangue da vítima: uma delas veneno que provoca intoxicação crônica ou aguda e a morte. A principal suspeita do envenenamento é a madrasta.

O processo com mais de 3 mil páginas, reúne depoimentos de dezenas de testemunhas, laudos e relatórios de perícias. A estimativa da Justiça é que este julgamento dure ao menos dois dias. Se condenada, Jaíra pode pegar até 20 anos de prisão.

De acordo com a denúncia, a madrasta levou Mirela 12 vezes a hospitais no período em que colocava veneno na comida dela, mas sempre em hospitais diferentes para não levantar suspeitas, até que Mirela teve uma parada cardíaca e morreu.

Para a polícia, Jaíra queria ter acesso a R$ 800 mil que a menina recebeu de um hospital como indenização pela morte da mãe dela no parto. Mirela só teria acesso aos valores quando completasse 18 anos.

A suspeita está presa desde setembro 2019 na Penitenciária Feminina Ana Maria do Couto, na capital.

Internações

Todas as vezes que a menina passava mal era levada ao hospital, onde ficava internada de três a sete dias e, depois, melhorava. Ao retornar para casa, ela voltava a adoecer.

Foram, ao todo, nove internações em dois meses. Ela recebia diagnósticos de infecção, pneumonia e até meningite. Na última vez em que foi parar no hospital, a menina já chegou morta. O hospital não quis declarar o óbito, mas suspeitava ser meningite.

Na ocasião, foi acionada a Delegacia Especializada de Homicídio e Proteção à Pessoa (DHPP), que diante de falta de evidências sobre morte violenta, requisitou vários exames por precaução. Em um deles, foi detectada a substância venenosa no sangue da menina.

Motivo do crime

A vítima tinha direito a uma indenização pela morte da mãe durante o parto, por erro médico em um hospital da capital. A ação foi movida pelos avós maternos da criança. Em 2019, após 10 anos, o processo foi encerrado, e o hospital foi condenado a pagar uma indenização de R$ 800 mil à família, já descontando os honorários advocatícios.

Parte do dinheiro ficaria depositada em uma conta para a menina movimentar na idade adulta. A Justiça autorizou que fosse usada uma pequena parte desse fundo para despesas da criança, mas a maior quantia só poderia ser acessada aos 24 anos. O dinheiro começou a ser pago em 2019.

Até 2018, a menina era criada pelos avós paternos. Em 2017, a avó morreu e, no ano seguinte, o avô também faleceu. Então, a garota passou a ser criada pelo pai e pela madrasta, Jaira Gonçalves de Arruda. A partir daí, a mulher deu início ao plano de matar a criança para ficar com a indenização, segundo investigado

A suspeita foi ouvida após a morte da menina e contou que convive com o pai da vítima desde que ela tinha 2 anos de idade e que se considerava mãe dela.

Jaíra declarou que a enteada começou a ficar doente em 17 de abril de 2019, apresentando dor de cabeça, tontura, dor na barriga e vômito. A suspeita foi levada para a sede da Deddica, em Cuiabá.