Com a escassez global de vacinas contra a Covid-19 e questões sobre a segurança da dose da AstraZeneca em jovens, países cogitam misturar fórmulas diferentes para completar a imunização da população. E, agora, os primeiros dados de estudos sobre o assunto começam a sair.

Uma pesquisa encomendada pelo governo britânico e recém-publicada no periódico The Lancet, com 463 voluntários, viu que é seguro combinar a primeira dose da vacina da AstraZeneca com a segunda da Pfizer (e vice-versa). O único senão foi um aumento de eventos adversos comuns e esperados, como dor de cabeça e febre.

“Isso indica segurança, o que deve ser confirmado por mais estudos. Mas ainda não sabemos qual é a real eficácia da tática”, comenta o microbiologista Flávio Guimarães, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Existe uma teoria em voga de que esses combos estimulariam ainda mais a resposta imune. E uma pesquisa espanhola dá pistas nesse sentido. Nela, 663 voluntários que já haviam recebido uma dose da AstraZeneca completaram a imunização com a Comirnaty, da Pfizer. O resultado, ainda não divulgado ou revisado por outros pesquisadores, foi uma produção de anticorpos maior do que na primeira aplicação.

Esses mesmos anticorpos foram então testados com sucesso em um ensaio de neutralização, que é um tipo de avaliação preliminar de imunidade. Ou seja, o imunizante da Pfizer serviria de reforço ao trabalho iniciado pela Covishield, da AstraZeneca. O efeito também foi notado em dois estudos com animais. Contudo, faltam pesquisas que mostrem, na prática, se essa combinação é mais ou menos eficaz do que as aplicações tradicionais.

Mesmo diante de algumas incertezas, países como Espanha, França, Canadá e Finlândia já estão recomendando aos jovens que receberam a primeira dose da AstraZeneca que finalizem seu esquema com outro tipo. Isso porque esse imunizante foi associado a coágulos sanguíneos nessa população. É um possível efeito adverso muito raro, mas que preocupa as autoridades.

Guimarães lembra que a vacinação heteróloga (nome técnico da estratégia de combinar vacinas diferentes) já foi adotada em pandemias anteriores, e há anos é estudada com bons resultados contra doenças como ebola e HIV. “Mas seu sucesso depende de condições específicas”, aponta o especialista.

O principal ponto é que os imunizantes a serem combinados precisariam conter o mesmo antígeno do vírus — o pedacinho que é apresentado ao sistema imune para que ele se proteja. “Só dá para considerar fazer o reforço com uma vacina diferente se o antígeno for exatamente o mesmo”, pondera a imunologista Cristina Bonorino, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

É que acontece com a Covishield e a Comirnaty, da Pfizer. Embora usem tecnologias diferentes, ambas introduzem no corpo a proteína spike (ou espícula), que recobre a superfície do Sars-CoV-2. Na primeira, isso acontece por meio de um vetor viral: um adenovírus modificado geneticamente para carregar a spike. Na segunda, um pedaço do RNA, o código genético do vírus, introduz na célula humana a receita para que ela mesma fabrique essa molécula.

Nessa linha de misturar vacinas parecidas, o Centro de Controle de Doenças dos Estados Unidos (CDC) já autorizou a combinação das fórmulas de Pfizer e Moderna, ambas à base de RNA mensageiro, quando uma delas não estiver disponível para a segunda dose.

AstraZeneca mais Coronavac: pode mesclar as doses?

Diante da escassez de vacinas, seria ótimo se pudéssemos combinar os dois imunizantes mais aplicados no Brasil sem ameaçar a eficácia ou a segurança. Mas não há estudos com esse combo, e o raciocínio teórico não é lá muito promissor. “Um não serviria como reforço do outro, porque geram proteção por meio de mecanismos diferentes”, explica Bonorino.

Segundo o Ministério da Saúde, a vacinação cruzada é considerada um erro, e quem recebe fórmulas de laboratórios distintos não pode ser considerado imunizado. Como levantou a Folha de S. Paulo, mais de 16 mil brasileiros tiveram as doses trocadas por engano.

A princípio, isso não implica grandes riscos para a saúde, mas erros do tipo devem ser evitados em nome da segurança das pessoas e da eficácia da campanha de vacinação. “É perigoso partir para o uso combinado sem estudos prévios. Seria melhor atrasar a segunda dose ou mesmo recomeçar o protocolo do zero”, teoriza Guimarães.

Foi a essa conclusão que o Ministério chegou no caso das gestantes que tomaram uma dose da AstraZeneca. Depois de relatos de trombose pós-vacina que ainda estão sendo investigados, o governo suspendeu a aplicação nesse subgrupo de mulheres. Elas deverão aguardar o parto e o fim do puerpério para terminarem a imunização, mesmo que isso implique em meses de atraso.

Por fim, vale dizer que essa postergação atrapalha o funcionamento da vacina. Quem está aguardando não deve descuidar, pois não está devidamente protegido.