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“Xerecuda”. “Carnuda”. A funkeira conta que já recebeu comentários maldosos como esses sobre sua vulva, principalmente ao publicar fotos de biquíni nas redes sociais. Tati garante não estar nem aí para a opinião alheia e para os adjetivos de mau gosto. No entanto, o que a incomoda de verdade é falta de opções de biquínis para mulheres que têm o monte pubiano mais ressaltado – e sobre isso, ela fez um desabafo que viralizou na internet. O vídeo teve quase 90 mil likes e 7 mil comentários no Instagram.

“Ter uma xereca grande não é um problema para mim, mas eu gosto de usar fio dental. Quando eu posto alguma foto, sempre vem alguém fazer comentário: ‘ah, a xerecuda’. Mas geralmente eu não ligo, eu boto o que eu quero”, explica Tati que, há mais de 20 anos, fala sobre assuntos tabus em suas músicas. “A indústria da moda tem que fazer biquíni para todos os tipos de mulheres, tanto a xerequinha, quanto a xerecuda. E inclusive para as mulheres trans. Todas nós somos mulheres”, completa.

E não é só Tati que sofre com esse dilema. Outras famosas também se identificaram. Entre elas, a cantora Duda Beat, a produtora de conteúdo Tia Má e as modelos Letticia Munniz e Rita Carreira, que deixaram mensagens concordando com a funkeira.

Eu nunca cheguei a sofrer bullying por isso, mas é um desconforto você tentar vestir uma peça que não te faz se sentir bem. Existem biquínis que cabem certinho em outras partes, mas ficam pequenos na ppk, porque não foram pensados para a largura do meu quadril. Parece que simplesmente fizeram uma peça um pouco maior do que a que uma mulher magra vestiria

Esse é o relato de Lettícia para Universa. O dilema que essas mulheres enfrentam na busca por uma peça que vista e cubra toda a vulva é um problema que a moda parece ainda não se atentar.

Mesmo que os biquínis tenham surgido depois da Segunda Guerra Mundial, eles ainda seguem padrões e modelagens desatualizadas, que não comportam a diversidade dos corpos femininos. Se para ter uma silhueta de verão só é preciso colocar o biquíni, para algumas encontrar um modelo que comporte as partes íntimas já é o primeiro passo na batalha pela quebra de padrões que aprisionam nós, mulheres.

“A moda não entende nossos corpos”

Para Carla Lemos, produtora de conteúdo e fundadora do blog Modices, a moda ainda não é um ambiente que estimula a diversidade para atender corpos fora do padrão. “É tudo padronizado para seguir um ritmo industrial de criação em massa. Quando você está produzindo roupa normal, que tem mais pano, é mais fácil de disfarçar ou de fazer os ajustes, então essas peças pode servir a mais corpos. Agora com biquíni não, porque você está ali cobrindo o mínimo possível – com as calcinhas é o mesmo problema”.

Carla conta que uma de suas mais de 200 mil seguidoras compartilhou um truque para fazer com que a ppk não “vazasse” do bíquini: usar a parte de trás virada pra frente.

A moda usa modelos de prova com corpos específicos, padronizados, e, com a moda praia é ainda pior, porque se usa manequins. Testam as peças em um pedaço de fibra que não reproduz as formas do corpo feminino. Se você não experimenta algo em um corpo real, não vai funcionar nos corpos reais. É por isso também que a gente tem tanta dificuldade na moda praia de ter sutiãs que funcionem pra quem tem peito grande, porque não tem referência dentro da criação.

Carla já falou sobre a saga da mulher peituda para comprar um biquíni  aqui em Universa.

Tem biquíni que, quando você se movimenta, eles chegam a entrar para dentro da perereca, sabe? Dá uma tristeza… É um supergatilho pra quem está tentando emagrecer, pra quem está insatisfeita com o corpo. Vira uma frustração, porque a gente nunca se encaixa.

Lettícia diz que hoje em dia sabe que a culpa é da falta de democracia das marcas, mas muitas mulheres que estão em um processo de desconstrução ainda sofrem. “Elas pensam: ‘ah, se eu fosse mais magra, essa calcinha, esse maio, essa lingerie me vestiria. A culpa é minha, eu estou gorda, eu preciso fazer alguma coisa’. Então se torna uma vergonha da gente com a gente mesmo.”

O que Carla vê como solução para esse dilema é a mesma saída que Tati e Lettícia esperam. “É um problema de como se pensa nas roupas, elas estão sendo feitas para manequins, não para corpos reais. Quando uma peça é aprovada, o ideal seria que ela fosse testada em diferentes tipos de corpos. A moda praia fica limitada no close, não na usabilidade”.

Para Carla, a moda praia precisa ser mais confortável para as mulheres viverem o verão em paz. “Pra gente pular na piscina, usar na praia, com o corpo se movimentando, em ação, não só para a pessoa ficar lá parada tomando bronze. Nos e-commerces de moda praia, são sempre as modelos mais magras. A mesma coisa com pelos, a gente não vê uma campanha com mulheres com pelos na virilha, pelo na axila ainda é mais aceito, agora na virilha não”.

Pornografia reforça a ideia de ppk perfeita
Assim como para outras partes do corpo feminino, também existe um estereótipo de ppk perfeita, um padrão reforçado pelo universo pornográfico, como reforça Lettícia. “O pornô influencia em muitos estereótipos sobre o corpo feminino. Prega e reforça o estereótipo do corpo magro, a cor da virilha, a virilha sempre lisinha, que não tem nenhum pelo, que o pelo não cresce, não encrava, que não dá alergia, não é só sobre o tamanho da ppk”.

Enquanto as redes sociais perpetuam esse ciclo de busca por uma ppk dos sonhos, com fotos produzidas que não refletem a vida real, por outro lado é através delas que pessoas como levam suas mensagens de libertação feminina. “Tem muita mulher que sente vergonha. Eu não me importo em falar e resolvi fazer o vídeo em nome de outras mulheres xerecudas. Vi muitos comentários positivos. Querendo ou não muita gente passa por isso, só não tem coragem pra falar”, comenta a funkeira.

Atualmente, existe até cirurgia plástica para “correção” da vulva. Segundo um levantamento da Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética (ISAPS), o Brasil é o líder mundial no ranking de ninfoplastias, a operação é feita para reduzir tamanhos dos lábios vaginais.

Para a influencer Letticia Munniz, esse dado é cruel: “É muito triste você manipular a mente de uma mulher a ponto de que ela acredita que fazer uma cirurgia na perereca vai deixar ela mais feliz. O difícil é que isso é muito para uma aprovação externa, né? Porque a gente não olha para a nossa perereca”.

Tati, que já fez 26 cirurgias plásticas, afirma que não faria um procedimento na ppk. “Nunca tive vergonha de mostrar a pepeca na hora do sexo. Se eu não tenho vergonha de cantar o que eu canto, teria vergonha disso?”, brinca. “É importante que as mulheres se libertem – sendo gorda ou magra, com silicone ou sem, tem que se libertar”, acrescenta a funkeira.

O movimento body positive luta para que corpos fora do padrão sejam aceitos pela sociedade. Em recente entrevista para Universa, Alexandra Gurgel, criadora do movimento corpo livre, reforçou o mantra de que “corpo de verão é qualquer corpo”, mas Carla alerta para um ponto: “É excelente o discurso de ‘pra estar no verão você só precisa de um corpo’, só que não tem biquíni, não tem maiô, não tem nada que sirva as pessoas fora do padrão. Principalmente agora com essa onda das peças cavadas, asa delta, a galera está fazendo peças cada vez menores, que até eu que não tinha esse problema, passei a ter. É urgente que a moda repense esses pontos”.

Marcas não se posicionam

Universa entrou em contato com algumas marcas de moda praia, entre elas Hope Resort, BlueBeach e Triya, para tentar entender como é feita a produção de biquínis no Brasil e se o mercado enxerga se preocupa em atender essa diversidade de corpos, mas não obteve respostas até a publicação da matéria.