Anúncios

Após altas constantes na valorização em relação ao dólar, o  voltou a sofrer com flutuações de preço desde que um “fork” do Bitcoin, chamado de SegWit2x, foi cancelado. Mas o que é um “fork”, por que o SegWit2x exige isso e qual a relevância desses movimentos para o Bitcoin?

O ponto central da polêmica é a capacidade máxima do Bitcoin de processar transações, ou seja, transferências de moedas entre seus utilizadores. O Bitcoin hoje opera quase sempre em seu limite, o que atrasa e encarece as transferências. Usuários, mineradores, investidores e envolvidas na do Bitcoin não chegam a um consenso sobre como resolver esse problema — e nem mesmo se o problema deve ser resolvido.

O SegWit2x é (ou seria) a primeira etapa no aumento do tamanho do bloco do Bitcoin. Blocos do Bitcoin contêm todas as transações feitas com a criptomoeda. Um bloco é gerado, em média, a cada dez minutos. O tamanho máximo do bloco é de um Megabyte (1 MB), e é isso que impõe um limite ao número de transferências.

Pela regra do SegWit2x, o tamanho do bloco seria duplicado e passaria a ser de 2 Megabytes (MB). É daí que vem o “2x”. A parte do “SegWit” se refere ao Segregated Witness, outra mudança técnica ao Bitcoin para aumentar o número máximo de transações por bloco. O SegWit já está valendo, mas, em vez de expandir os blocos, o SegWit diminuiu o tamanho que cada transferência de Bitcoin ocupa, aumentando a eficiência.

A adoção do SegWit e a posterior duplicação do tamanho do bloco do Bitcoin ambas fazem parte do “Acordo de Nova York”, um documento de maio deste ano. Asduas medidas não têm nenhuma relação técnica entre si, apenas miram no mesmo problema e constam do mesmo acordo. É por isso que a duplicação do tamanho do bloco acabou com o nome pouco intuitivo de “SegWit2x”.

Enquanto o SegWit foi adotado por uma mudança no software existente, a duplicação do tamanho do bloco seria efetivada na rede por meio de um “hard fork”: uma “divisão” de toda a cadeia do Bitcoin. Ou seja, passaria a existir um “Novo Bitcoin” (chamado de BTC1) e um “Bitcoin Clássico”. Com a adoção do novo Bitcoin pela maioria das partes interessadas, o “Bitcoin Clássico” não teria qualquer relevância e desapareceria, ficando somente o Novo Bitcoin, de maior capacidade.

Como o Bitcoin não tem uma “autoridade central”, há chances de que o Bitcoin atual continuaria existindo. Isso resultaria em incertezas nesse processo, incluindo a possibilidade de fraudes em que uma transação no “Bitcoin Clássico” poderia ser duplicada sem autorização das partes no “Novo Bitcoin” e vice-versa. Por outro lado, se essa proteção for criada, quem hoje tem Bitcoins poderia vender seus Bitcoins duas vezes (pelo processo “novo” e depois pelo “velho”), o que aumenta a especulação e as chances de a moeda atual não desaparecer. Pior ainda: a moeda nova é que poderia sumir ou desvalorizar, prejudicando a reputação do Bitcoin.

Há ainda quem seja contra a mudança no tamanho do bloco por questões financeiras e técnicas.

de transferências

O tamanho atual do bloco do Bitcoin, mesmo após a adoção do SegWit, não dá conta de toda a demanda de transações da rede. Isso significa que há uma fila de transferências. Quem quiser furar a fila precisa pagar uma taxa de “incentivo” para os mineradores incluírem sua transferência em detrimento de outras.

Com as recentes movimentações e flutuações do Bitcoin, a taxa média por transação ultrapassou os US$ 10 (cerca de R$ 33), mas valores por volta de US$ 4 (cerca de R$ 12) não são incomuns. Nessa realidade, transferências de Bitcoins começam a ficar mais caras (ou, no mínimo, terem custo comparável) a dos bancos tradicionais.

Como todas as transferências ocupam mais ou menos o mesmo espaço no bloco, transferências de valores pequenos ficam praticamente inviáveis.

Quem ganha com isso?

A taxa paga nas transferências é incluída nos ganhos dos mineradores que resolvem o bloco. Dobrar a capacidade do Bitcoin no momento pode muito bem decretar o fim dessas taxas e, portanto, do faturamento obtido com elas.

Com mais de 250 mil transações por dia, US$ 4 por transação adicionam pelo menos US$ 1 milhão ao bolso dos mineradores todos os dias – uma quantia significativa. Mesmo assim, a maioria dos mineradores se diz favorável ao SegWit2x, já que um Bitcoin “limitado” pode não ter futuro.

Limitado, Bitcoin ficaria fora do comércio cotidiano

O limite de transferências representa um limite também para o crescimento do Bitcoin em termos práticos. Não é possível fazer compras diárias ou pagar um sanduíche com Bitcoin se o custo da transação supera o do produto ou serviço adquirido.

Alguns defensores do Bitcoin argumentam a moeda é hoje uma “reserva de valor”, ou seja, que o Bitcoin seria o “ouro” das criptomoedas: é precioso, é usado nas reservas de grandes valores, mas não é utilizado no comércio cotidiano.

Nesse raciocínio, o Bitcoin não precisa mudar, e a utilidade prática das moedas digitais pode ficar para as “moedas alternativas”, como Ethereum e Monero. Os atuais mineradores de Bitcoin não se envolvem com essas moedas por causa das diferenças nos requisitos de processamento: a maior parte do hardware que atualmente minera o Bitcoin é incompatível com essas moedas.

A diferença é que criptomoedas não são um metal precioso e não existe nenhuma razão técnica para que uma moeda não possa ser reserva de valor e ainda assim ser útil no cotidiano. Com o tempo, uma moeda mais popular, que seja de fato usada no real, pode ganhar mais valor. Isso prejudicaria a posição do Bitcoin como reserva de valor, pois não haveria nada para segurar o valor do Bitcoin, que cresceu impulsionado pela promessa de que seria a “moeda do futuro”.

Com o Bitcoin valendo menos, todo o dos mineradores e poupadores sofreria. Mas não é possível ter certeza sobre o que vai ou não acontecer, e pode ser que o Bitcoin retenha seu valor mesmo sem mudar nada. É essa dúvida que está balançando o mercado.

Quem crê na possibilidade de queda do Bitcoin por falta de uso real é quem mais está interessado em aumentar o tamanho do bloco e teme um futuro estagnado. Quem não crê nisso, seja porque acredita na teoria do “Bitcoin como reserva de valor” ou porque tem medo dos riscos inerentes a qualquer mudança, quer que tudo fique como está.

Alternativas já existem

Quem até agora ganhou com tudo isso foi o Bitcoin Cash. Outro “fork” criado para resolver o problema do limite de capacidade, a moeda usa um bloco de 8 MB (um “SegWit8X”, por assim dizer) e está operando bem abaixo da capacidade.

No dia 8 de novembro, o Bitcoin Cash valia cerca de US$ 600. Hoje, a moeda está cotada em US$ 1,3 mil (o Bitcoin caiu de US$ 7,3 mil para US$ 6,5 mil no mesmo período). Projetado desde o início para coexistir com o Bitcoin, o Bitcoin Cash não sofre com os problemas inerentes à existência de duas cadeias e cada vez mais se estabelece com um “Bitcoin pronto para o futuro”.

Como o processo de mineração do Bitcoin Cash é igual ao do Bitcoin, alguns mineradores favoráveis ao SegWit2x já apoiam a rede do Bitcoin Cash quando as valorizações da moeda a tornam mais lucrativa para ser minerada que o Bitcoin tradicional. Se o Bitcoin Cash continuar subindo, mais mineradores podem pular para o barco da moeda — o que complica ainda mais o futuro do Bitcoin, já que o envolvimento de mineradores é hoje o principal termômetro para medir o interesse em uma criptomoeda.